Veja como o economista atua nos ministérios do governo federal em planejamento, orçamento e políticas públicas.

Economista e políticas públicas no governo federal

No texto anterior, analisamos a atuação do economista em regulação, com foco em autarquias e entidades como Banco Central do Brasil, Comissão de Valores Mobiliários e Superintendência de Seguros Privados. Ali, o eixo central era a estabilidade, a supervisão e o funcionamento eficiente dos mercados. Agora, avançamos um passo além: saímos da regulação para a aplicação direta de políticas públicas no âmbito do governo federal.

Neste texto, iremos entender como o economista atua dentro dos ministérios, onde as decisões se traduzem em planejamento, orçamento, execução de políticas que impactam milhões de pessoas. Trata-se do núcleo estratégico do Poder Executivo, em que a análise econômica sustenta escolhas fiscais, programas sociais, investimentos públicos e prioridades nacionais.

Ministérios do Governo Federal

Os ministérios são os órgãos centrais da administração direta do Poder Executivo Federal, responsáveis por formular, implementar e monitorar políticas públicas em suas áreas de competência.​
Diferente das autarquias e empresas públicas dos textos anteriores (BCB, CVM, SUSEP, BNDES), os ministérios integram diretamente a estrutura do governo federal, sob supervisão do Presidente da República, e não possuem personalidade jurídica própria nem autonomia administrativa.​

O ponto chave da atuação do economista no governo federal é entender que o cargo de economista não é um cargo comum, estando restrito a algumas prefeituras e universidades. Isso ocorre pois se buscam profissionais com carreiras transversais, de modo que os cargos que demandam aplicação de conhecimentos de economia possuem nomes mais genéricos como Analista de Comércio Exterior, uma carreira do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

O cargo de EPPGG e o de Analista de Políticas Públicas absorvem funções que antes eram de economistas: planejamento, orçamento e avaliação de políticas. A disciplina de “Políticas Públicas” tornou-se transversal em grandes editais, como o CNU e CGU, evidenciando essa migração de conteúdo.

Para o economista, os ministérios com maior relevância são o Ministério da Fazenda (MF), o Ministério do Planejamento e Orçamento (MPO) e o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), mas as carreiras descritas abaixo são transversais e podem levar o servidor a atuar em praticamente qualquer órgão da administração federal.

Há três carreiras principais com alta relevância para economistas nos ministérios federais, todas com ingresso por concurso público:

Carreira Sigla Salário inicial
Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental EPPGG R$ 20.924,80
Analista de Planejamento e Orçamento APO R$ 20.924,80
Analista Técnico de Desenvolvimento Socioeconômico ATDS R$ 9.711,00
Veja como o economista atua nos ministérios do governo federal em planejamento, orçamento e políticas públicas.
Foto de Alvaro Reyes na Unsplash

EPPGG — Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental

A carreira de EPPGG é considerada a mais transversal e estratégica do governo federal: os especialistas podem ser alocados em qualquer órgão da administração direta, autárquica e fundacional, exercendo funções de alto nível em formulação, implementação e avaliação de políticas públicas.
Hoje, os EPPGGs estão distribuídos principalmente nos ministérios da Fazenda/Planejamento/Orçamento/Gestão (29,3%), Regulação (9,2%), Presidência da República (8,4%), Educação (7,8%) e Desenvolvimento Social (6%).​

Atribuições típicas:

  • Formulação, supervisão e avaliação de políticas públicas federais.
  • Direção e assessoramento em escalões superiores da administração pública.
  • Monitoramento de indicadores e análise de impacto de programas.

Último concurso: realizado no âmbito do CNU 2024, banca Cesgranrio, com 150 vagas distribuídas por bloco temático (incluindo 20 vagas no bloco de Educação, Saúde e Desenvolvimento Social e 15 vagas no bloco de Setores Econômicos e Regulação), resultado final homologado em março de 2025.

APO — Analista de Planejamento e Orçamento

O APO é o cargo do Ministério do Planejamento e Orçamento (MPO) voltado para a gestão orçamentária, planejamento e avaliação de políticas do governo federal. Enquanto o EPPGG é generalista, o APO tem foco específico no ciclo orçamentário federal, PPA, LDO e LOA, e na projeção do cenário fiscal.

Atribuições típicas:

  • Elaboração e acompanhamento da programação orçamentária federal (PPA, LDO, LOA).
  • Projeção de receitas, despesas e análise do cenário fiscal do governo.
  • Avaliação de programas e políticas públicas quanto à eficácia e eficiência do gasto.

O último concurso ocorreu em abril de 2024, com início do Curso de Formação (CF) em novembro de 2024, com uma segunda turma de excedentes convocada para início do CF em janeiro de 2026. O concurso está encerrado, com todas as 100 vagas imediatas nomeadas e o Curso de Formação dos excedentes em andamento até maio de 2026.

Próximo concurso: o concurso de 2024 foi o primeiro edital para o cargo desde 2015 (intervalo de 9 anos). Não há, até o momento, novo edital publicado ou autorização formal para novo certame.

ATDS — Analista Técnico de Desenvolvimento Socioeconômico

O ATDS é uma carreira transversal nova, criada pela Medida Provisória nº 1.286/2024 e aprovada pelo Senado em outubro de 2025. Assim como o EPPGG, permite atuação em diferentes órgãos da administração federal, mas com perfil, senioridade e remuneração claramente distintos.

Atribuições típicas:

  • Executar atividades de assistência técnica em projetos de desenvolvimento socioeconômico.
  • Planejar, implementar, analisar e avaliar políticas públicas nas áreas de desenvolvimento regional, territorial, agrário e urbano.
  • Analisar viabilidade econômica de projetos de investimento e desenvolvimento sustentável.

Último concurso: CNU 2025 (Bloco 6), banca FGV, 250 vagas, provas em 5 de outubro de 2025.​
Salário: R$ 9.711,00 inicial, chegando a R$ 21.070,00 no topo da carreira (20 níveis), jornada de 40h semanais.

Foto de Craig Lovelidge na Unsplash

ATDS vai substituir o EPPGG?

O governo não anunciou oficialmente a extinção do EPPGG, mas as ações recentes do MGI apontam para uma estratégia de preenchimento de vagas via ATDS em vez de ampliar o quadro de EPPGGs.
Em dezembro de 2025, o MGI publicou proposta de lei que transforma 9.981 cargos vagos em 7.937 novos cargos, sendo a maior parte em carreiras transversais de custo menor, como ATDS.​
A criação do ATDS gerou reação formal de sindicatos técnicos: o SINAEG levou ao Palácio do Planalto críticas à nova carreira, alertando para sobreposição de funções, violação de atribuições legais das profissões técnicas e desvalorização dos servidores já concursados.​

Uma tentativa de extinção da carreira já ocorreu em 2016 e foi vetada pelo próprio Executivo. O ATDS, por sua vez, representa uma porta de entrada com menor competitividade salarial mas maior frequência de editais e progressão de até R$21.070,00.

Economistas em outros ministérios: Saúde, Educação e além

Há economistas atuando nos ministérios setoriais, como Saúde e Educação, mas a dinâmica é diferente dos ministérios econômicos.​
A principal via de entrada é indireta: a maioria dos economistas que atua nesses ministérios chega pelas carreiras transversais (especialmente EPPGG e ATDS), sendo posteriormente lotada no órgão conforme interesse institucional e perfil do servidor.

Há, entretanto, algumas vias diretas relevantes:

  • Ministério da Saúde: possui o Departamento de Economia da Saúde (DESID), que trabalha com avaliação econômica de tecnologias em saúde, financiamento do SUS e análise de custo-efetividade de políticas e medicamentos. No CNU 2025, o Ministério da Saúde abriu vagas para Analista Técnico-Administrativo com remuneração de até R$ 14.734,44.
  • Ministério da Educação / FNDE: o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) abriu, em 2024, processo seletivo para Analista de Prestação de Contas (39 vagas, R$6.130,00, lotação em Brasília), voltado para análise financeira dos gastos em educação. A presença de economistas com foco mais estratégico tende a ocorrer via EPPGG lotado no ministério.​
  • MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços): no CNU 2024, abriu 10 vagas específicas para Economista (exigindo graduação em Ciências Econômicas), com remuneração inicial de R$7.700,00. O MDIC também tem o cargo de Analista de Comércio Exterior (ACE), relevante para economistas com interesse em comércio internacional.​

Para o economista que quer trabalhar com políticas de saúde ou educação, o caminho mais valorizado, tanto em remuneração quanto em influência técnica, é ingressar como EPPGG e ser lotado nesses ministérios. Os cargos específicos de Economista nesses órgãos tendem a ter salários mais baixos e funções mais operacionais.

Economistas no setor público: planejamento, desenvolvimento e produção de dados

A atuação do economista nos ministérios revela um campo estratégico, em que a técnica se converte diretamente em decisões que moldam o rumo do país. Trata-se de compreender o funcionamento do Estado por dentro e assumir posições de influência real na formulação das prioridades nacionais.

No próximo texto, ampliaremos essa visão para além da administração direta, explorando a atuação do economista em bancos e agências de desenvolvimento, bem como em órgãos de pesquisa e produção de dados como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, onde a análise econômica sustenta diagnósticos, financiamento e estratégias de desenvolvimento de longo prazo.

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