Veja como o economista atua no setor público, em áreas como planejamento, orçamento e políticas públicas.

Economista no setor público: órgãos reguladores e concursos

Economia é a ciência que estuda a alocação de recursos escassos. No cenário atual em que a política base é de reforma e corte de gastos, o economista se torna um profissional essencial para o setor público, garantindo uma alocação mais racional de recursos.

Deste modo, a graduação em Economia é uma das mais versáteis para o mundo dos concursos. Ele pode transitar entre a área fiscal, controle, bancária, planejamento e regulação.

​A atuação do economista no setor público tem uma vantagem chave em relação a outras carreiras, pois muitas de suas atividades são consideradas Carreiras de Estado, ou seja, funções que não podem ser delegadas ao setor privado. Isso ocorre pois muitas delas envolvem a definição de regras para atuação do estado (CVM e Banco Central), além de aplicação de multas e fiscalização, como ocorre para profissionais da receita.

Nesta série de posts iremos abordar essas diferentes possibilidades de atuação, nesta primeira fase teremos como foco a atuação em órgãos e agências reguladoras.

Órgãos e agências reguladoras

Para entender a atuação do economista na regulação econômica é necessário entender como funciona o Sistema Financeiro Nacional (SFN), que o ambiente em que ocorre a circulação de ativos financeiros e o encontro das entidades que promovem a intermediação financeira.

No SFN temos três níveis de organização. No topo estão os conselhos, como o Conselho Monetário Nacional, eles são os agentes normativos, que determinam as regras para o funcionamento do sistema. A aplicação e fiscalização das regras é feita pelos agentes supervisores. Nesse nível é onde se encontram as principais oportunidades para os economistas, pois é onde estão o Banco Central do Brasil, a Comissão de Valores Mobiliários e a Superintendência de Seguros Privados. Por fim, temos os operadores do sistema financeiro que são as instituições que ofertam serviços financeiros, como por exemplo, os bancos comerciais e bolsas de valores.

Banco Central do Brasil

Veja como o economista atua no setor público, em áreas como planejamento, orçamento e políticas públicas.
Banco Central do Brasil em Fortaleza — Reprodução: Wikimedia Commons

​O Banco Central do Brasil (BCB) é um dos principais executores das orientações do CMN e atua como regulador e supervisor do Sistema Financeiro Nacional (SFN).

O BCB se relaciona somente com instituições financeiras, funcionando como banco dos bancos, fazendo a supervisão dessas instituições. Dentre suas atividades estão a emissão de moeda, determinação da taxa de juros e fiscalização das instituições.

​O economista que atua no Banco Central do Brasil (BCB) normalmente ingressa por concurso no cargo de Analista do Banco Central do Brasil, especialmente na área de Economia e Finanças.

Dentre suas atribuições estão:

  • Apoia e executa atividades ligadas à política monetária (condução para cumprimento de metas), análises econômicas e desenho/avaliação de instrumentos de política.​
  • Atua em estabilidade financeira, regulação e supervisão, com trabalhos técnicos que se conectam às atribuições do BCB de fiscalizar/autorizar instituições e zelar pelo funcionamento do SFN.​
  • Pode trabalhar com temas como liquidez, mercado aberto (títulos públicos), crédito, capitais estrangeiros e aperfeiçoamento do sistema financeiro (dependendo da lotação).

O último concurso para o cargo ocorreu em 2024 e foi prorrogado até março de 2026, entretanto foi feita solicitação de um novo edital para o preenchimento de 410 vagas para o cargo de analista, no final de 2025. Ainda assim, não é possível apontar quando ocorrerá o próximo concurso, pois após o pedido feito pelo órgão a fase de autorização é a mais demorada: alguns pedidos são aprovados em poucos meses, enquanto outros ficam anos aguardando portaria de autorização.

O salário inicial foi de R$20.924,80 para o cargo de analista. A lotação é em Brasília, mas com o tempo de carreira é possível ir para outras capitais em que existe uma sede do BC como São Paulo e Curitiba.

Comissão de Valores Mobiliários – CVM

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Reprodução: Governo Federal

​A Comissão de Valores Mobiliários é uma instituição que tem como objetivo disciplinar e fiscalizar a atuação de todos os integrantes do mercado de valores mobiliários (mercado de capitais).

Ela é responsável por registrar as companhias de capital aberto (companhias que têm suas ações negociadas na bolsa), fazer a intermediação desse mercado e assegurar que a bolsa de valores funcione de maneira eficiente. Também apura infrações, instaura processos administrativos sancionadores e pode aplicar penalidades em caso de irregularidades (ex.: falhas informacionais, manipulação, uso indevido de informação relevante, etc.).

O economista que atua na CVM normalmente ingressa por concurso em cargos de nível superior (com frequência, o cargo de Analista, e em alguns certames também há carreiras/cargos voltados à atividade finalística de fiscalização e apuração).

Dentre suas atribuições típicas estão:

  • Desenvolvimento de atividades ligadas ao controle, normatização, registro de eventos e aperfeiçoamento do mercado de valores mobiliários.​
  • Elaboração de normas contábeis e de auditoria e acompanhamento de auditores independentes.​
  • Análise e supervisão de companhias abertas, intermediários e participantes do mercado, com foco em transparência e conformidade regulatória.​
  • Produção de estudos econômico-financeiros para subsidiar decisões e políticas regulatórias do órgão.

O último concurso ocorreu em 2024 e está válido até dezembro de 2026. Foi feita a solicitação de um novo edital para 139 vagas (Inspetor, Analista e Agente Executivo), mas sem data oficial publicada. Tal como no BCB, após a solicitação institucional, a fase de autorização ministerial é a mais demorada e pode levar meses ou anos.
O salário inicial é de R$20.924,80, podendo chegar a R$29.832,94 no topo da carreira. No edital 2024, o Analista foi lotado na sede principal no Rio de Janeiro, enquanto o cargo de Inspetor – Mercado de Capitais teve vagas tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro.

Superintendência de Seguros Privados – SUSEP

A Superintendência de Seguros Privados (SUSEP) é uma autarquia federal vinculada ao Ministério da Fazenda, responsável pelo controle e fiscalização dos mercados de seguro, previdência privada aberta, capitalização e resseguro no Brasil.

Ela atua como braço executivo do CNSP (Conselho Nacional de Seguros Privados), que define as diretrizes e normas da política de seguros privados. Entre suas principais competências estão: fiscalizar a constituição, organização, funcionamento e operação de sociedades seguradoras; e defender os interesses dos consumidores dos mercados supervisionados. Também pode apurar irregularidades e aplicar penalidades administrativas aos infratores.​

O economista que atua na SUSEP normalmente ingressa por concurso no cargo de Analista Técnico, especialmente na especialidade “Supervisão e Regulação de Mercados”, que concentra o maior número de vagas e é a área mais alinhada à atuação de economistas no órgão.

Dentre suas atribuições típicas estão:

  • Supervisão e regulação dos mercados de seguro, resseguro, capitalização e previdência complementar aberta.​
  • Análise de solvência, liquidez e riscos das entidades supervisionadas, contribuindo para a estabilidade do setor.​
  • Elaboração e avaliação de normas regulatórias, com uso de instrumentos de análise econômico-financeira e atuarial.​
  • Monitoramento do cumprimento de requisitos de governança corporativa, controles internos e gestão de riscos pelas entidades supervisionadas.​

O último concurso ocorreu em 2025 com 75 vagas imediatas para Analista Técnico e formação de cadastro de reserva, o concurso está válido até 2027. O salário inicial é de R$18.033,52 para o cargo de Analista Técnico (40h). A sede da SUSEP está no Rio de Janeiro, onde ocorre a lotação principal dos servidores.

Secretaria do Tesouro Nacional – STN

A Secretaria do Tesouro Nacional (STN) é um órgão do Ministério da Fazenda, que atua como órgão central do Sistema de Administração Financeira Federal e do Sistema de Contabilidade Federal.
Dentre suas principais competências estão: administrar a Conta Única do Tesouro Nacional; administrar a dívida pública sob responsabilidade do Tesouro; e acompanhar o cumprimento dos compromissos fiscais de estados e municípios.​ Em termos práticos, a STN é o caixa do governo federal.

O economista que atua na STN normalmente ingressa por concurso no cargo de Auditor Federal de Finanças e Controle (AFFC), com especialidade em Econômico-Financeira.​

Dentre suas atribuições típicas estão:

  • Supervisão, coordenação e execução de trabalhos especializados sobre gestão orçamentária, financeira e patrimonial, e análise contábil de programas governamentais.​
  • Assessoramento especializado nos Sistemas de Administração Financeira Federal e Contabilidade Federal, com suporte à programação financeira anual e plurianual da União.​
  • Interpretação da legislação econômico-fiscal e financeira e análise, pesquisa e perícia de atos e fatos da administração orçamentária e financeira.​
  • Contribuição para a sustentabilidade fiscal, com estudos que apoiam o monitoramento de riscos e o cumprimento de metas fiscais.​

O último concurso ocorreu em 2024, com 40 vagas imediatas para Auditor Federal de Finanças e Controle, distribuídas entre cinco especialidades. O concurso foi prorrogado e está válido até setembro de 2026.
Não há, até o momento, autorização publicada para um novo edital, mas o histórico do órgão (o penúltimo concurso foi em 2012, com intervalo de mais de 10 anos para o de 2024) sinaliza que o timing de novos certames é imprevisível.

O salário inicial é de R$20.924,80 para o cargo de Auditor Federal de Finanças e Controle. A lotação é em Brasília (DF), onde está a sede da STN, sem variação regional de acordo com o histórico dos editais.

Conselho Administrativo de Defesa Econômica – CADE

Veja como o economista atua no setor público, em áreas como planejamento, orçamento e políticas públicas.
Reprodução: Governo Federal

O CADE é uma autarquia federal vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, responsável por zelar pela livre concorrência no Brasil. O CADE atua em questões de fusões e aquisições, verificando se elas podem representar concentração de mercado a ponto de prejudicar os consumidores.

Para economistas há duas oportunidades, o cargo de Analistas Técnico-Administrativos, que requer qualquer formação. E o cargo de Economista, que requer a formação específica.

O cargo de Economista no CADE tem caráter financeiro interno, enquanto o trabalho de análise econômica da concorrência é realizado pelos Analistas Técnico-Administrativos.  Quem quer atuar diretamente na análise de fusões e condutas deve mirar neste cargo, que tem como funções:

  • Instruir e analisar atos de fusões e aquisições, verificando riscos de concentração de mercado.
  • Investigar condutas anticompetitivas como formação de cartéis e abuso de posição dominante.
  • Produzir estudos e notas técnicas econômicas para subsidiar os julgamentos do Tribunal.

O último concurso público ocorreu em 2014, tornando o CADE um dos órgãos com maior intervalo entre certames dentre as instituições reguladoras.​ Desde então, o CADE realizou duas solicitações de novos concursos: em 2023 e outra em junho de 2025, ambas sem autorização publicada até o momento. Como a fase de autorização ministerial é a mais imprevisível, a recomendação é priorizar matérias que se sobrepõem com outros certames da área econômica.

A diferença salarial entre o CADE e os demais órgãos do bloco financeiro é expressiva, o Analista do CADE inicia com cerca de R$5.488,46. Para muitos economistas, o CADE representa mais um trampolim de prestígio técnico do que um destino de carreira de longo prazo no serviço público.

A sede do CADE fica em Brasília (DF), sem representações regionais ou vagas distribuídas entre outros estados.

Agências Reguladoras

As agências reguladoras federais representam o maior conjunto de oportunidades para o economista no serviço público federal fora do eixo financeiro (BCB, CVM, STN, SUSEP). São autarquias especiais vinculadas a Ministérios específicos, e cada uma atua sobre um setor de infraestrutura ou serviço público de interesse nacional.

Em praticamente todas elas, o cargo de Especialista em Regulação aceita qualquer formação superior, mas muitas possuem cotas ou especialidades específicas para Economia (geralmente ligadas à análise econômico-financeira de tarifas, concorrência setorial e impacto regulatório). O salário inicial do Especialista em Regulação é de R$16.413,35, com perspectiva de reestruturação da carreira para iniciais de R$20.000,00 a partir de abril de 2026, após acordo firmado entre o governo e as categorias em agosto de 2024.

As principais agências federais com oportunidades para economistas são:

Agência Setor Sede principal
ANEEL Energia elétrica Brasília/DF
ANATEL Telecomunicações Brasília/DF
ANP Petróleo, gás e biocombustíveis Rio de Janeiro/RJ
ANS Saúde suplementar Rio de Janeiro/RJ
ANVISA Vigilância sanitária Brasília/DF
ANTT Transportes terrestres Brasília/DF
ANTAQ Transportes aquaviários Brasília/DF
ANA Recursos hídricos Brasília/DF

Dentre as agências, a ANATEL é a agência com maior capilaridade geográfica do grupo, com representações em todas as capitais brasileiras por meio de gerências regionais e unidades operacionais, sendo a única do bloco que efetivamente distribui servidores por todo o país.

O concurso mais recente foi o CNU (Concurso Nacional Unificado) de 2025, no qual diversas agências abriram vagas conjuntamente. Esse formato de concurso unificado tende a se repetir, o que significa que o candidato pode concorrer a vagas em várias agências ao mesmo tempo com uma única preparação de base.

Agências estaduais e municipais

Além das agências federais, há um número crescente de agências estaduais e municipais de regulação que abrem concursos com cargos de Analista de Regulação, frequentemente exigindo formação em Economia e registro no CRE.

A principal vantagem das agências estaduais é a proximidade geográfica: ao contrário das federais, onde a grande maioria exige residência em Brasília ou Rio de Janeiro. A contrapartida é que os salários iniciais costumam ser menores (entre R$6.000 e R$10.000), variando muito conforme o estado e o momento do edital.

O núcleo financeiro estatal: desafios e oportunidades para economistas

A atuação do economista no núcleo financeiro do estado exige um nível técnico elevadíssimo, esses concursos estão entre os mais disputados do país e são o sonho de muitos economistas. São carreiras estratégicas, com impacto direto sobre políticas públicas, estabilidade econômica e funcionamento dos mercados.

Nos próximos textos, vamos aprofundar nas oportunidades para economistas no setor público, detalhando a atuação em bancos de fomento, ministérios, e órgãos de fiscalização e controle.

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