Áreas de atuação da psicologia – parte 3

A psicologia é uma ciência em constante evolução, impulsionada tanto pelos avanços no entendimento do cérebro quanto pelas mudanças sociais, culturais e tecnológicas que transformam a forma como vivemos. À medida que o mundo se torna mais complexo, novas interações, comportamentos e desafios emergem e surgem também novos campos de estudo dentro da psicologia.

Enquanto no post anterior exploramos áreas tradicionais ligadas ao contexto organizacional, neste último texto da série aprofundamos justamente esses novos caminhos que a psicologia vem trilhando. Campos que ampliam a compreensão do ser humano em suas múltiplas dimensões: do corpo em movimento às relações sociais, das dinâmicas coletivas às experiências urbanas, revelando uma ciência que integra indivíduo, sociedade e ambiente de forma cada vez mais interdisciplinar.

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Foto de Bret Kavanaugh na Unsplash

Neuropsicologia

A neuropsicologia estuda a relação entre o funcionamento cerebral e o comportamento humano, analisando como diferentes sistemas e áreas do cérebro influenciam processos cognitivos, emocionais e comportamentais. Essa área busca compreender tanto o funcionamento típico quanto às alterações que surgem em decorrência de doenças, lesões ou condições neurodesenvolvimentais. 

O neuropsicólogo trabalha integrando conhecimentos da psicologia e da neurologia, utilizando avaliações especializadas para identificar como o cérebro está operando e de que forma isso se reflete no cotidiano da pessoa. Para isso, aplica testes padronizados que investigam habilidades como atenção, memória, linguagem, percepção, funções executivas e outras capacidades cognitivas fundamentais.

A maior parte das pessoas que procuram um neuropsicólogo apresenta queixas relacionadas ao desempenho cognitivo ou comportamental, geralmente associadas a alterações neurológicas. Entre os casos mais comuns estão traumatismo craniano, acidente vascular cerebral (AVC), doenças degenerativas como Alzheimer e Parkinson, além de quadros decorrentes de anoxia, epilepsia ou sequelas neurológicas diversas.

A neuropsicologia também é essencial na avaliação de pessoas com suspeita de neurodivergências, como Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), dislexia, discalculia, disgrafia, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e altas habilidades/superdotação. Nesses casos, o neuropsicólogo contribui para o diagnóstico, orientação familiar e planejamento de intervenções.

​O Neuropsicólogo trabalha principalmente em clínicas especializadas realizando atendimentos, e em centros de neuropsicologia, realizando pesquisas e prestando atendimento. Dentre os centros de psicologia que há no país pode-se citar o CNA – Centro de Neuropsicologia Aplicada o CPN – Centro Paulista de Neuropsicologia, e o INAP – Instituto de Neuropsicologia Aplicada. 

Como nem todas as faculdades de psicologia oferecem disciplinas aprofundadas sobre neuropsicologia, é comum que a formação nessa área aconteça por meio de especializações. A pós-graduação em neuropsicologia é essencial para atuar profissionalmente, pois fornece treinamento técnico específico para aplicação de testes, interpretação de resultados e desenvolvimento de planos de intervenção.

Psicomotricidade

A psicomotricidade estuda a relação entre o corpo, o movimento e os processos emocionais, cognitivos e sociais do indivíduo. Essa área busca compreender como o corpo expressa vivências internas e como o movimento influencia o desenvolvimento global desde a infância até a idade adulta.

A principal função dessa ciência é motivar e estimular a capacidade sensitiva e perceptiva, ajudar as pessoas a descobrirem e expressar suas capacidades, criar segurança e consciência sobre seu espaço e espaço dos outros. Para isso, esse profissional utiliza-se de várias técnicas, muitas vezes baseadas em jogos, brincadeiras, atividades lúdicas e exercícios estruturados, que promovem integração entre corpo, mente e ambiente.

​Com o passar do tempo, a psicomotricidade deixou de ser aplicada apenas na correção de dificuldades motoras e passou a ser vista como um campo essencial para o desenvolvimento humano. Atualmente, ela é utilizada tanto com indivíduos sem queixas clínicas quanto com pessoas que apresentam atrasos ou condições específicas, como dispraxia, dificuldades de comunicação e interação social, perturbações no esquema corporal, agressividade, inibição, hiperatividade e déficit de atenção.

O psicomotricista pode atuar em clínicas especializadas, centros de desenvolvimento infantil e instituições de saúde. No ambiente escolar, esse profissional contribui para o desenvolvimento motor e socioemocional das crianças, seja por meio de aulas específicas, seja em salas de recursos voltadas para estudantes que precisam de acompanhamento diferenciado.

Por ser uma área ainda pouco difundida no Brasil, é raro encontrar disciplinas de psicomotricidade na graduação. Por isso, quem deseja seguir carreira nesse campo geralmente busca cursos de especialização para aprofundar conhecimentos teóricos e práticos, além de adquirir experiência em ambientes clínicos e educacionais.

Psicologia do trânsito

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Foto de Victor Sánchez Berruezo na Unsplash

A psicologia do trânsito é a área que investiga como fatores emocionais, cognitivos e comportamentais influenciam a forma como as pessoas se relacionam com o ambiente viário. Seu objetivo é compreender por que condutores, passageiros e pedestres agem da maneira que agem, identificando tanto aspectos conscientes quanto processos automáticos que podem resultar em risco, acidentes ou dificuldades na convivência no trânsito.

Entre suas atividades estão a formulação de políticas públicas, o desenvolvimento de campanhas educativas, a avaliação psicológica de candidatos à habilitação e a criação de estratégias que promovam comportamentos mais seguros nas vias. Também participa de ações voltadas a pedestres, condutores infratores e grupos vulneráveis, com foco em reduzir comportamentos de risco e ampliar a segurança coletiva.

Embora ainda seja considerada uma área relativamente nova, a psicologia do trânsito vem ganhando espaço nos últimos anos. A escassez de estudos acadêmicos e de disciplinas específicas na graduação ainda é um desafio, mas o aumento da demanda por profissionais especializados tem impulsionado o crescimento da área.

O trabalho do psicólogo do trânsito contribui para identificar padrões de comportamento, prevenir acidentes e promover mudanças que beneficiam toda a sociedade. Suas ações ajudam a transformar o trânsito em um ambiente mais humano, seguro e consciente.

Para atuar nessa área, é necessário obter o reconhecimento do Conselho Federal de Psicologia (CFP) como especialista em psicologia do trânsito. Muitos profissionais escolhem esse caminho com o objetivo de realizar avaliações psicológicas para emissão e renovação da Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Para isso, é preciso ter uma credencial emitida pelo DETRAN, além de possuir a especialização correspondente e os instrumentos necessários para aplicação das avaliações psicológicas.

A psicologia do trânsito, apesar de pouco explorada, é fundamental para reduzir índices de acidentes e promover uma cultura de segurança e responsabilidade nas vias. Ao compreender o comportamento humano no trânsito, o psicólogo contribui diretamente para salvar vidas e melhorar a convivência entre todos os usuários das vias públicas.

A expansão da psicologia e seus novos caminhos

A psicologia é uma área ampla e profundamente diversa, com múltiplos campos de estudo que refletem a complexidade das relações humanas com o mundo. Como vimos ao longo desta série, compreender o ser humano envolve analisar desde os processos internos que moldam o comportamento até as interações cotidianas com o ambiente, seja nos movimentos do corpo, nas dinâmicas sociais ou até mesmo no trânsito. Cada uma dessas dimensões revela a psicologia como uma ciência que integra o indivíduo à totalidade da qual faz parte.

Nesse sentido, compreender como as pessoas se relacionam entre si e com o contexto social em que vivem é fundamental para ampliar ainda mais essa visão. A interação entre indivíduos, grupos e sociedade é justamente o foco da sociopsicologia, ou psicologia social, um campo que aprofunda a maneira como normas, valores, identidades e comportamentos emergem da vida coletiva. 

No próximo post, exploraremos como a sociopsicologia integra essas perspectivas para explicar fenômenos sociais complexos e compreender não apenas quem somos individualmente, mas quem nos tornamos quando estamos juntos.